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Bye bye Pequim

Reuters

PEQUIM (The New York Times) – Há uma expressão em inglês que todo morador de Pequim parece conhecer. Ela era usada por motoristas de ônibus quando eles abriam a porta, por voluntários que acompanhavam os últimos jornalistas que saíam da sala de imprensa de um estádio às 3 da manhã e por motoristas de táxi quando entregavam o recibo. "Bye-bye."

À medida que o circo saía da cidade na segunda-feira, ainda havia tempo para um último bye-bye para Pequim, enquanto a poluição e a umidade voltavam com pontualidade assustadora a sufocar a cidade.

Os calçadões largos e retos do Olympic Green estavam quase desertas. Só havia o ruído estranho dos sinais de trânsito para pedestres cegos e o som industrial de algumas cigarras. Havia voluntários fotografando uns aos outros. Havia, é claro, os guardas uniformizados em posição de sentido no Ninho do Pássaro fechado.

Tudo isso vai se abrir novamente no dia 6 de setembro para os Jogos Paraolímpicos. Mas na segunda, ainda havia uma sensação de encerramento. A grande festa tinha terminado.

Mas, então, esses Jogos foram "agitados," como disse Sebastian Coe, presidente do comitê Londres 2012, ou "mornos”, como classificou o The Times de Londres?

A primeira coisa que precisa ser dita é que para os atletas (e para a imprensa), grande parte da experiência dos Jogos é determinada pelo Comitê Olímpico Internacional e, em menor grau, pelas federações internacionais. Como alguns membros do comitê londrino já disseram, quando lhes perguntaram como a experiência será diferente, de 80 a 85 por cento dos Jogos é transferível.

O COI aprendeu a lição de Atlanta, onde a incapacidade dos anfitriões de gerenciar um sistema de ônibus eficiente para os atletas e jornalistas gerou uma onda de críticas. Ele se esforçou em Pequim para criar uma bolha em que os jornalistas pudessem trabalhar e os atletas pudessem competir com o mínimo tumulto; vista de dentro, a bolha de Pequim parecia bastante com a de Atenas e a de Sydney.

Muitos turistas reclamaram que não gostaram dos eventos esportivos. A segurança estava entediante, praticamente não havia barracas de lemnbranças e o calor e a umidade estavam frequentemente opressivos. Os pequineses, famintos por assistir esporte de alto nível, tiveram, contudo, bastante discernimento. Eles se entusiasmavam quando os chineses estavam competindo, ficando frequentemente em silêncio ou distraídos quando eles não estavam, ou durante esportes menos populares. Mas os torcedores das arenas eram apenas parte do cenário. Uma casa cheia é um pano de fundo que indica à platéia de que ela está assistindo algo que vale a pena.

Esses Jogos também tinham o objetivo de projetar Pequim e a China para o mundo(e os patrocinadores corporativos para a China). Como o mundo os estava vendo era evidentemente uma obsessão para os chineses.

Toda cidade-sede fica obviamente ansiosa para ler as críticas sobre ela. Talvez Barcelona fosse chegada demais para mostrar que se importava, mas se importava. Os moradores de Sydney, que se sentem um pouco ignorados na parte de baixo do planeta, tinham, no entanto, toda certeza que quando o mundo chegasse não havia como deixar de gostar deles, do país e da cidade. E gostaram. Os atenienses, bem acostumados a conviver com turistas, realmente disseram: Venham, fiquem à vontade, comam, bebam, gastem dinheiro, se divirtam e tentem não quebrar nada.

A China visivelmente queria sinalizar seu status para o mundo preparando os Jogos mais opulentos e high-tech que já houve. Os pequineses queriam que o mundo considerasse que eles estavam fazendo um bom trabalho. E mais do que isso, as pessoas comuns claramente queriam que nós as amássemos, assim como a cidade e o país delas.

Para a maioria dos jornalistas e atletas, seu principal contato com os chineses foi com os 75.000 voluntários que lutavam com um inglês que era, dependendo do seu ponto de vista, surpreendentemente bom ou então ruim de forma que chegava a ser frustrante. Para os visitantes cuja língua nativa não era o inglês ou chinês, a experiência em geral foi frustrante. Mas os voluntários nunca desanimavam. Eles permaneceram alegres, entusiasmados e prestativos até o final.

Numa das últimas viagens de ônibus na segunda, uma voluntária chamada Lu Yan, estudante de medicina chinesa na vida real, pedia para ser fotografada com cada jornalista que pegava o ônibus. Era o último dia dela nas Olimpíadas, ela dizia. Na terça era ia voltar para casa na Mongólia Interior. "O que você acha de Pequim?" dizia ela. Depois vinha o "bye-bye" final quando cada passageiro descia.

Mas tão onipresentes quanto os voluntários foram as forças de segurança. É importante deixar claro que a crítica permanente à China tinha como foco o sistema político chinês e não os chineses nem a cultura chinesa.

O grande número de policiais e seguranças de Pequim e das Olimpíadas ao longo do trajeto da maratona às 7 da manhã num domingo eram uma forma bem visível de lembrar isso. Eles não revistavam ninguém. Eles não estavam lá para procurar terroristas, pois a segurança invisível e o controle rígido dos vistos já tinham se encarregado disso. Eles estavam lá para manter o público afastado e controlado, nas calçadas por trás das grades temporárias que algum planejador urbano tinha decretado. Mas em Pequim as calçadas são freqüentemente muito largas.

Um dos alvos das críticas nas duas últimas semanas foram os "parques de protesto" organizados para permitir que os chineses fizessem manifestações políticas. Ninguém conseguiu autorização e alguns que a pediram foram intimidados pelas autoridades. Esse foi o tema dominante de uma das entrevistas coletivas realizadas diariamente pelo comitê organizador e pelo COI. Os organizadores responderam de forma inédita: cancelaram a entrevista coletiva do dia seguinte. Isso eliminou o tema dos parques de protesto, mas de certa forma provou que os jornalistas tinham razão.

Se a elite chinesa ia ser tão sensível com relação às críticas, ela podia ter tentando cumprir algumas das promessas de maior abertura feitas aos votantes quando venceram a escolha dos Jogos em 2001.

Claro que como Wang Wei, o funcionário estatal que comandava essa mal-fadada entrevista coletiva tentou argumentar, talvez o simples fato de que os Jogos foram realizados em Pequim vai levar a mais abertura, embora, quando pressionado, ele não tenha conseguido mencionar nenhuma evidência disso. Talvez, como Zhou Enlai disse quando lhe perguntaram sobre a Revolução Francesa, ainda seja muito cedo para dizer.

De qualquer forma, qualquer sistema de governo tenta moldar a cultura para seus objetivos. É notável como os chineses marcham bem. Todo país com algum tipo de tradição marcial tem uma unidade militar de elite com uma marcha especial. Os guardas chineses que carregaram as bandeiras na cerimônia de abertura tiveram que executar uma marcha que tirava nota 10 na escala de dificuldade de "andar estranho ". Eles foram perfeitos. Também estiveram perfeitos os homens vestidos impecavelmente de branco que traziam as medalhas antes de cada cerimônia de entrega de medalhas. Em qualquer lugar que dois soldados ou policiais uniformizados andavam juntos, eles estavam no mesmo passo.

No domingo à noite, quando um pelotão de rapazes de camisetas pólo azuis e nada militares saía do Ninho do Pássaro pela última vez, eles formaram fileiras e andaram no mesmo passo, carregando sacolas cor de laranja na mão esquerda, a não ser três ou quatro que se desgarraram, um falando num celular, um bebendo água de uma garrafinha e um, incapaz de esperar, xeretando as lembranças que havia em sua sacola e mostrando-as para um Oficial do Exército Popular de Libertação, tão entusiasmado quanto ele.

Para estes olhos ocidentais, os que se desgarraram pareceram a face mais encantadora da China.

(Peter Berlin)

c.2008 The New York Times
Distributed by The New York Times Syndicate

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